Lufthansa Highlights Leipzig

 

Lufthansa Highlights Reisebericht Leipzig

 
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Mostra-me! Por favor! Leipzig!

Final da tarde, pelas sete e meia. Percorro o centro da cidade de Leipzig. Vou a fazer o “Passo Lipsi”. Conhece o passo lipsi? Um passo com o pé esquerdo para a esquerda. Lançar o pé direito para a esquerda, juntar os pés. Uma dança de Leipzig e que a RDA inventou nos anos cinquenta. Para combater o twist ocidental. Mas o passo lipsi nunca conseguiu conquistar o seu lugar ao sol.
Pedras de calçada. Candeeiros de rua frios e redondos. Crianças com capuzes. Cachecóis a combinar com os sapatos. Calças de ganga elásticas enfiadas dentro das botas. Casais a comer rolo de carne em restaurantes. Janelas iluminadas em fachadas antigas. Aroma a baunilha de uma casa de chá. Os quiosques de postais são recuperados. O acordeonista toca o seu último “Rondo alla turca”. Vestígios dos contos infantis de Wilhelm Hauff. Na geladaria Pinguin, limpei o meu primeiro copo de gelado em criança (Katharinenstraße 4). Um leite quente em dias frios custa aqui 1,60 euros.

A Praça do Mercado, há anos um verdadeiro estaleiro. O fabricante de perucas Woyzeck foi ali decapitado em 1824 por ter esfaqueado a sua amada por ciúme. Georg Büchner inspirou-se na história. Neve sobre os meus lábios. Rapidamente um chocolate quente na World Coffee Shop em Hugendubel (Petersstraße 12–14), segundo andar, passando pela religião e pela filosofia, lá atrás, junto a “Veículos e passatempos”. O local ideal para achar um bom partido em Leipzig, é o que dizem. Infelizmente, não há nada para mim. Será que alguém já celebrou numa canção o ar de Leipzig, como aconteceu sobre o ar de Berlim? Que eu saiba, não. Conseguimos vê-lo, agora na noite fria, quando expiramos, mas tudo isso se torna mais belo quando sabemos a sua composição. Uma brisa de Bitterfeld, um niquinho de Bach. O sopro suave da revolução pacífica, o suor dos jovens pioneiros, a voz gritada de Walter Ulbricht e a “Ode à Alegria” de Schiller, escrita aqui.

No Neumarkt ouve-se os sinos da Igreja de São Nicolau e da Igreja de São Tomás a tocarem ao mesmo tempo. Numa das igrejas, no final dos anos oitenta orações pela paz deram início à reunificação, na outra em tempos Marx e Engels foram padrinhos no batizado de Karl Liebknecht. Na Igreja de São Tomás é hoje apresentada a Missa em Si menor de Bach. Mas tenho fome. Dirijo-me ao meu restaurante coreano preferido, o Kim, na Strohsackpassage (Nikolaistraße 6–10).

As lojas fecham-se. Nas ruas, com nomes a falar de sal, sapateiros e roupas, ouve-se o linguajar das gentes locais misturado com o idioma estranho dos estudantes internacionais. Os coloridos gatafunhos do pintor de Leipzig Michael Fischer – no Art am Brühl, o negro envolto em tule dos góticos que saem do bar de absinto da Katharinenstraße. O salão de cabeleireiro a cheirar a amostras da Douglas, ouve-se baixinho o ranger dos andarilhos dos idosos que passam. Um mundo dentro da cidade, ainda que não seja uma cidade do mundo. Se calhar temos de sair e regressar para honrarmos aquilo que apenas turistas conseguem apreciar?

Eu saí na adolescência e regressei aos 40. Leipzig é para mim um misto de recordações de infância e novas descobertas, vestígios do socialismo e da reluzente limpeza capitalista. De sentimentalismo manchado com excrementos de pomba e o desenvolvimento do leste que tão facilmente estagnou, de “Dona Nobis Pacem” e “Sing, mein Sachse, sing”. A sensação de estar em casa é também um ritual. No restaurante coreano peço o de sempre: bulgogi, carne de vaca em fatias finas e temperada com especiarias, grelhada na mesa, com Kim-Chi (couve chinesa de escabeche) e sake quente (vinho de arroz). O estabelecimento não é nenhum regalo para os olhos, está instalado num centro comercial, apresenta a habitual decoração asiática mas come-se mesmo muito bem e nunca encontramos os suspeitos do costume, porque esses estão na badalada Gottschedstraße, em Barcelona, no Sol Y Mar.

Podemos medir o centro da cidade com algumas dezenas de passos. O meu cinema favorito, o Passage-Kino, também não fica longe (Hainstraße 19a). Na sala maior, a “Astoria”, as filas de trás são ótimas para trocar umas carícias. Depois do filme, recomendo o meu passeio noturno de celebração dos vinte anos da queda do muro “Wior sinn dos Volk!” (“O povo somos nós!”) Descer a Hainstraße (aqui Theodor Fontane fez a sua aprendizagem como farmacêutico), depois para a esquerda, passar pela Galeria Kaufhof à direita, atravessar a zona pedonal, passar ao lado do estaleiro, onde está a ser construída a Igreja da Universidade, passar entre a fonte Mendebrunnen e a Gewandhaus, na direção da estação de correios principal.

Leipzig, a cidade dos heróis, a cidade da música, a cidade da feira do livro. Mãe da Escola de Leipzig. Leipzig, um estado de alma, um estado de espírito, uma espécie de lar. Agora a última bebida. Um Miss Marple, um cocktail sem álcool no Sonder Bar. Ou então algo mais forte no First Whisk(e)y Bar – que tem 150 tipos de whisky (os dois bares ficam na Strohsackpassage, Nikolaistr. 6–10).

Bebo um copo de Lagavulin, um puro malte com mais de 16 anos que sabe a turfa, algas e cabo queimado – não é coisa para maricas! Só raramente danço e, quando o faço, sempre mediante protesto, mas depois do segundo copo de Lagavulin sinto a respiração quente da presença próxima da juventude e abro caminho entre embriagados noturnos, um grupo de punks, turistas aventureiros e chego à zona dos bares, um espaço amplo de ruelas pedonais que se chama pelo divertido nome de Drallewatsch. Em todas as galerias que percorro com respiração acelerada, lá estão as raparigas. Strohsack. Messehof. Para onde nos levam? E quanto a todos os edifícios antigos agora modernizados? Quem será que ali vive?

Na cave do Spizz, em frente à antiga Câmara Municipal, a partir da uma da manhã está sempre cheio que nem um ovo (Markt 9). Há “Jazz Funk Disco” ou “Piano Boogie Night”, no pequeno palco, sob o teto cheio de instrumentos de sopro suspensos, está normalmente alguma coisa a acontecer, e a entrada é livre. Um passo com o pé esquerdo para a esquerda. Lançar o pé direito para a esquerda. Na altura, o passo lipsi nunca conseguiu conquistar o seu lugar ao sol. Mas Leipzig torna-se a cada dia mais popular.

 
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